O método do bilionário Luiz Barsi para se aposentar investindo só em ações

Economista com décadas de experiência no mercado financeiro, Luiz Barsi Filho se tornou uma pequena celebridade do mundo dos investimentos: ostenta hoje, aos 80 anos, o posto de um dos maiores investidores individuais da Bolsa de Valores brasileira, com um patrimônio estimado em 2 bilhões de reais, todo ele em ações.

Os primeiros desse reais – ainda em cruzeiros, moeda da época – começaram a ser aplicados aos poucos no início da década de 1970, quando Barsi tinha pouco mais de 30 anos e chegou à conclusão de que o melhor caminho para criar um patrimônio verdadeiramente rentável, sólido e polpudo para a aposentadoria era investindo em ações.

“Eu me dei conta de que o empresário, dono de uma empresa de capital aberto, vai sempre ter uma aposentadoria, porque, além de seu trabalho, vai sempre ter um rendimento do negócio dele chamado dividendo”, disse Barsi, que conversou recentemente com o site de EXAME. O dividendo é a parte dos lucros da empresa que é distribuída aos sócios e acionistas.

Vem daí o centro de sua estratégia, que consiste em direcionar todos os investimentos para ações de empresas sólidas e que sejam boas pagadoras de dividendos, visando a formação de um patrimônio de longo prazo. É o que Barsi chama de carteira previdenciária ou de carteira de renda mensal. “É investir em bons projetos, é uma parceria de longo prazo, você se torna um pequeno dono dessas empresas”, disse.

É virtualmente impossível encontrar um gestor, analista ou consultor que apoie a ideia de alguém colocar todo seu dinheiro na bolsa de valores, mesmo aqueles com os perfis mais arrojados, já que há o risco de perdas e é preciso haver uma parcela de proteção para o capital. Ainda assim, Barsi garante que tudo o que tem sempre esteve essencialmente em ações e repete sem hesitar que qualquer um que seguir sua fórmula irá também virar um bilionário como ele.

Veja a seguir alguns dos pilares de sua estratégia para montar uma carteira de ações de longo prazo e construir uma fonte de renda a partir dela:

Viver de dividendos

Mais do que olhar para o preço da ação e eventuais valorizações, o que importa para uma carteira de renda mensal de longo prazo é a renda recorrente que ela gera. Isto vem da distribuição de dividendos e dos pagamentos de juros sobre capital próprio, as duas principais formas pelas quais as companhias de capital aberto compartilham seus lucros com seus acionistas na Bolsa.

“Eu nem olho para o Ibovespa, se está 100 mil ou 120 mil pontos, se está caro ou se está barato, ele é só uma carteira fictícia”, diz Barsi. “E não dou nenhum valor para o patrimônio, patrimônio não te alimenta. O que te alimenta é o dividendo, a renda que esse patrimônio gera, e é para isso que eu olho.”

Reinvestir e aportar mais

A indicação de Barsi, em especial para os primeiros anos de investimento, é pegar todos os dividendos que vão sendo pagos pelas primeiras ações compradas e reinvestir na compra de mais ações, das mesmas empresas. Quanto maior o número de ações, maiores serão os dividendos pagos. “Isso gera um efeito multiplicador que não existe em outras aplicações”, diz o investidor.

“Eu trabalhava e tinha a minha renda, então tudo o que eu ganhava em dividendos eu usava para reaplicar nas ações, além de novos aportes de parte do meu salário.”

A carteira não muda

Quando se fala em investimentos em ações, a estratégia de muitos é buscar oportunidades de papéis baratos, espera-los valorizar, vender na alta, embolsar o lucro e partir para outra oportunidade do gênero. Ou, então, se desfazer de tudo caso a meta de lucro não se concretize. A carteira de dividendos de Barsi não tem isso.

Ele afirma que o grupo de empresas em que investe é essencialmente o mesmo desde que começou, em 1970, galgado em uma visão que entende aquela fatia de participação como uma parceria de longo prazo com o negócio.

“Eu fico comprando, nunca vendo”, afirma. “Tenho ações do Banco do Brasil que comprei em 1972, por 60 centavos, e nunca mais vendi. Foi assim que virei o maior acionista pessoa física do banco, coisa que nem imaginava.” No fechamento desta segunda-feira (10), uma ação do Banco do Brasil era vendida a 49,11 reais.

Holdings, empresas sólidas e setores perenes

Uma carteira de longo prazo necessariamente passará por vários ciclos econômicos, de alta e de baixa, ao longo das décadas. Não só o valor das empresas pode cair na Bolsa como elas podem também ter anos de prejuízo e reduzir ou suspender o pagamento de dividendos em determinados períodos.

Para se proteger minimamente dessas oscilações, Barsi sempre procurou empresas que, além de boa gestão, atuem em áreas de atividades perenes e sustentáveis, isto é, que dificilmente ficarão sem demanda mesmo em momentos de crise.

É o caso, exemplifica, de setores como o financeiro, de energia, saneamento ou de insumos básicos como papel e celulose e produtos químicos. “Você consegue viver sem energia? As pessoas vão ficar sem tomar banho por causa da crise do subprime nos Estados Unidos?”, diz. Banco do Brasil, Sabesp, Klabin, Unipar Carbocloro e Eternit são alguns nomes que menciona.

Outra parte da carteira vai para holdings, isto é, grupos que controlam diferentes empresas. Isso faz com que não tenham a receita toda concentrada em um único negócio. Barsi cita Itaúsa e Eletrobras como exemplos.

Reserva estratégica e oportunidades

Ter uma carteira fiel de empresas não significa ser fechado totalmente a outras oportunidades. Um pedaço menor da estratégia consiste em identificar e comprar ações de outras companhias que estejam com bons preços – após valorizarem, Barsi as vende e usa o lucro para reinvestir em suas empresas cativas e aumentar ainda mais a carteira de dividendos.

Ele explica que, apesar de o portfolio de dividendos, com o grupo de empresas que acompanha há décadas, ser a parte central do patrimônio, uma parcela do dinheiro é deixada de fora em uma reserva estratégica, sempre pronta para comprar novas ações em janelas inesperadas de oportunidade.

Podem ser as pechincas de outras empresas, para lucros extras, ou mais ações da própria carteira em um momento de desconto – foi o que fez, por exemplo, quando o governo Dilma Rousseff mexeu nas tarifas de energia elétrica, em 2012, e reduziu os preços das empresas do setor a pó. Barsi correu para comprar mais Eletrobras.

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